Janelas do Pacífico: dois dias por Valparaíso e Isla Negra

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A nós, viajantes

 
Todo mundo tem para si que viajar tem uma razão já embutida no próprio verbo: viajar. sair de casa, embarcar para um lugar desconhecido, superar as distâncias que as leis da física impõem, pegar um avião e abrir as asas das próprias expectativas. Viajar é tanto um ato de ousadia quanto de sobrevivência: traz aquela sensação de ir além do que proporciona a exígua rotina nossa de cada dia, às vezes tão insustentável quanto oito horas diárias, mesclada ao pensamento de mais um destino alcançado, mais algumas janelas abertas, mais uns paradigmas quebrados e mais um punhado de histórias para preencher as paredes da memória, sempre com um espaço a mais para pendurar uma vista panorâmica de Barcelona ou seu carro quebrado entre montanhas marroquinas. Viajar é abrir-se ao que nunca foi visto, encher os olhos do desconhecido e engolir o estrangeiro sem mastigar, mantendo-o inteiro para digestão. Tornar-se um estrangeiro por inteiro, afinal; até para si mesmo.
 
Viajar por uma semana é um resgate. Viajar por um mês é libertador. Viajar por tempo indeterminado, assim como morar fora do seu país de origem – ou até mesmo da sua cidade – é estrangeirizar-se: é ver como um estrangeiro e de repente descobrir, desde um poltrona de um ônibus de viagem qualquer, que estradas também são uma maneira de pertencer. Foi assim que, de uma passagem sem nome, inspirou-se uma epifania: de uma cidade a outra, os olhos presos à paisagem jamais vista que corria por volta de 100 km/h, descobri no mapa em meus braços um lugar que nunca estive, uma localização jamais localizável, uma rota jamais percorrida e, então, um pertencer de ser pertencido.
 
Para quem já se viu estrangeiro onde as convenções e as ficções sociais se sobrepõem às realidades naturais, parafraseando Fernando Pessoa, o mais perto que se há de chegar do pertencimento é o mapa-múndi: aqueles inexplorados pedaços de terra que estão ali apenas aguardando o próximo forasteiro a pôr os pés e sentir todo o mundo pelas entranhas – mesmo dando água nos olhos. Ali, numa estrada alguma de um país algum, senti que pertencia àquele lugar, àquele momento, àquele dia, àquela história que escrevo agora. Senti que pertencia a mim, afinal.
 
Chegando a um inexplorado ponto do globo terrestre, pertenci aos seus mistérios como o Pacífico pertence ao horizonte.
 
Valparaíso e Isla Negra: sobre cerros, street art e Neruda

 


 

A aproximadamente 120 km de Santiago há uma cidade portuária que todo turista que pisa na capital chilena ouve falar: Valparaíso. Situada na costa central do comprido país, a cidade já foi declarada Patrimônio Cultural da Unesco e seu charme está tanto no estilo urbanóide quanto no ar de a-modernidade-não-chegou-aqui, que impera. Atraída pelos murais e grafittis espalhados pelos “cerros”, peguei o primeiro ônibus de uma sexta-feira santa para ver Valparaíso de perto.
 
Logo que cheguei na rodoviária fui andando para o Nómada Hostel e passei pela feira do Mercado El Cardonal (cheiro de peixe no ar!). Caminhei por uma avenida que ocasionalmente se chamava Brasil e reparei: era uma cidade-fantasma. Um ou dois quilômetros com a mochila nas costas e um ou dois cachorros, um ou dois locais. Comecei a pensar que o dia santo ia acabar com meus planos, até que encontrei uma praça onde parei para tomar um café com leite (insistindo no erro de tomar café aguado, bebida bem provável de se encontrar em Santiago): era a Plaza Victoria, ao lado da Catedral de Valparaíso, que se preparava para um dia de crianças correndo e pulando pra lá e pra cá. O início do meu desbravamento pela cidade começaria ali, ao lado do ascensor Espíritu Santo e o Museo a Cielo Abierto, com 20 murais de artistas chilenos como Mario Carreño e José Balmes, entre outros, espalhados pelo cerro Bellavista. Decidi subir a pé e ir conhecendo os paralelepípedos com meus próprios pés. Entre mosaicos cheios de cor a paredes abstratas, a cada esquina uma nova maneira de ver o Pacífico ao longe.
 
Subindo pelo cerro Bellavista, encontrei uma série de placas com palavras de Federico Garcia Lorca que não poderia ignorar: “No marinero del água, sino marinero del viento”, dizia uma delas. Eram placas que haviam sido doadas pelo Ayuntamiento de Granada, na Espanha, para celebrar a 7ª Cumbre Mundial del Tango, que aconteceu em Valparaíso em 2007. Sinais para um caminho bem-aventurado.
 
Chegando ao ápice do cerro, encontrei uma das três casas que Pablo Neruda possuía em terras chilenas e que agora é um dos três museus sobre o poeta no país: La Sebastiana. Assim como as outras duas casas-museu – La Chascona e Isla Negra –, o local conserva a estrutura e os móveis originais, que mostram bem como Neruda era um tanto excêntrico e bem criativo no que diz respeito à decoração que tinha ao redor. O nome, La Sebastiana, era como o poeta a nomeou em homenagem ao espanhol que a construiu, Sebastián Collado – “um poeta da construção”, como chegou a dizer Neruda. Entre as histórias dos tantos objetos da casa – pode-se dizer que Neruda era um tanto caprichoso neste tipo de consumo – e cinco andares, de uma coisa não há dúvidas: é dali que se pode admirar a melhor vista de Valparaíso e uma infinita vista ao Pacífico.
 
Mais tarde, tive a ousadia de subir o cerro Concepción por um dos ascensores da cidade, de mesmo nome: um cubículo quase caindo aos pedaços que sobe e desce o dia inteiro levando turistas. Estava muito preocupada com a minha vida e minha mínima agonia de flutuar em aparatos mecânicos não me deixou reparar no resto da experiência – a vista, por exemplo. Depois descobri que aquele ascensor era o mais antigo da cidade, de 1883, quando ainda era movido a vapor (provável que nessa época eu teria outra impressão). A viagem foi rápida, no entanto, e logo estava caminhando pelo cerro com a câmera em mãos e registrando toda manifestação de arte ao redor. Eram muitos turistas e vendedores ambulantes, mas o passeio não perdeu a graça em nenhum momento. Além disso, o alfajor que comprei de uma senhora no Pasaje Fischer (se não me engano), no cerro Alegre, acrescentou à viagem um momento a mais de encanto para o paladar.
 
Acabei o dia na Plaza Sotomayor e no porto de Valparaíso, de onde queria tentar ver o pôr do sol que, ao final, estava sendo interrompido pela presença de alguns navios de carga e um barco de passeio que teimava em tocar uma ou outra música brasileira de gosto questionável. No entanto, a lua cheia veio dar o ar da graça e caminhei de volta ao albergue para acabar brindando o dia com uma americana e um sueco que também estavam de passagem.
 
Dos antigos ascensores aos vibrantes grafittis emparedados em construções antigas, fui a Isla Negra no dia seguinte, onde se situa a outra casa-museu de Neruda. A viagem em ônibus levou mais ou menos duas horas pois a praia de El Quisco estava cheia de gente e o trânsito se fazia notar – o normal seria uma hora e meia no máximo. Chegando lá, a minha vontade era tanta de conhecer a casa de veraneio do poeta que comprei uma empanada de “pino” (mistura de carne moída com cebola) e fui direto pra fila – Neruda tinha muitos convidados naquele dia, afinal. A construção, de 1939, é onde o poeta se dedicou ao “Canto General”, uma das obras de maior destaque entre os admiradores, e também onde se encontra seu túmulo bem ao lado de Matilde Urrutia, sua terceira esposa e até o fim da vida. O notável é que o estilo da casa atende ao imaginário poético do poeta chileno: alguns cômodos remetem os visitantes a um navio em alto mar, com objetos como carrancas, por exemplo. De Isla Negra, a vista para o Pacífico é ainda mais infinita. Tanto que Neruda escreveu:
 

“El océano Pacífico se salía del mapa. No había dónde ponerlo. Era tan grande, desordenado y azul que no cabía em ninguna parte. Por eso lo dejaron frente a mi ventana.”

 
Além da memória de um dos maiores poetas chilenos em forma de casa, a existência de Isla Negra me fez pensar num lugar que não atende as expectativas do viajante desavisado. O nome do local, aliás, me remetia mais a um filme do Scorsese ou um livro de Agatha Christie do que realmente pude ver: um sol brilhante, o mar refletindo azul e empanadas saborosas. Além disso, pude confirmar que Isla Negra tampouco é uma ilha. Ou seja, o mundo não está preocupado em atender nossas ilusões previamente construídas. E é essa a melhor parte.
 

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Renata Losso

Renata Losso

renata.losso@gmail.com

Eterna viajante com inquietudes para além-mar. Entre filantropias e misantropias, é jornalista por teoria, revisora por introspecção e escritora por essência. Mantém um cotidiano de estudos literários e um blog (www.inaquotidiano.wordpress.com) para não se perder tanto por aí. Na prática, vive constantemente arquitetando todas as possibilidades e buscando-as. É paulistana de 1986, hoje mora em Santiago do Chile, mas vira e mexe se encontra com a cabeça em Barcelona. Acredita que, se existem deuses por aí, Hermann Hesse poderia ser um deles: crê que temos que, diariamente, renovar o mundo dentro de nós mesmos.

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