A experiência de morar na Patagônia

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Quando eu falo para as pessoas que eu sou brasileiro, a primeira pergunta que me fazem é: “O que você está fazendo morrendo de frio por aqui?”, e o mais curioso disso é que sempre me falta a resposta. A verdade é que quando você se apaixona por algo, não existe explicação lógica dentro das suas ações, você simplesmente segue o coração. E a Patagônia é realmente um lugar apaixonante.
 
Cheguei aqui faz 3 anos e meio já e nem vi o tempo passar. Quando vim, não tinha a menor ideia de onde estava me metendo. Tinha me mudado para Santiago, Chile, há quase um ano, depois de uns anos vagando pela Europa. Trabalhava em uma empresa de consultoria de negócios e passava quase todo o dia dentro de um escritório, na frente do computador. Já não aguentava mais essa vida de cidade grande, metro lotado todos os dias, ganhando dinheiro para gastar no aluguel e na comida, apenas sustentando a vida laboral. Um ciclo infinito e sem sentido, do qual eu já havia fugido quando saí de São Paulo.1
 
Num dos poucos períodos de férias que tive, decidi dar uma volta pelo sul do Chile e conheci lugares lindos, tranquilos, com muita atividade ao ar livre e um lugar específico me chamou a atenção: Pucón. É uma pequena vila, entre um lago e um vulcão, que fica a uns 800 kms de Santiago. Passar uma semana por lá me fez pensar que a vida é muito valiosa para estar horas sentadas na frente do computador trabalhando em coisas que não me geravam nenhuma emoção.
 
Comecei então a buscar trabalho pelo sul do Chile, e depois de alguns currículos para lá e para cá, recebi uma oferta de um hotel-fazenda chamado Cerro Guido. Vi fotos do lugar e me animei tanto que nem me preocupei muito em saber onde ficava. Na minha cabeça bastava um lugar no sul do Chile que eu estava feliz. Só fui entender bem onde tinha me metido quando comprei a passagem e descobri que eram 4 horas de voo até Punta Arenas e que chegando lá ainda tinha mais 5 horas em ônibus até o destino final.
 


 
A chegada foi um choque de sentimentos. A cada vez que me perguntava onde estava, me surpreendia com a paisagem surreal da Patagônia, o que me fazia sentir que tinha feito uma boa escolha.
 
Não saberia dizer se Cerro Guido é uma vila, um povoado ou simplesmente uma agrupação de pessoas. O fato é que, segundo o último censo, são apenas 89 habitantes. Cerro Guido é uma fazenda ativa, que trabalha principalmente com ovelhas. Tem um terreno de 100 mil hectareas e aproximadamente 50 mil animais, entre ovelhas, bois e cavalos. Por estar a 100km da cidade mais próxima, Puerto Natales, toda a comida é produzida lá mesmo, a água vem dos rios e a para a eletricidade existe de um gerador à diesel, que só funciona das 6h às 9h e das 18h às 23h.
 
Cerro Guido é um desses lugares paradisíacos e com muita história. Foi fundada nos anos 20, como uma das principais bases de operações da Sociedade Exploradora Tierra del Fuego, uma empresa anglo-germanica-chilena que tinha aproximadamente 3 milhões de hectares concessionados pelo governo chileno na Patagônia com o objetivo de povoar a região e impedir que alguma outra nação tomasse o lugar.
 
Quase cem anos se passaram e o lugar continua praticamente igual. A vila é formada por um punhado de casas, uma escola, um posto médico e uma delegacia e a principal atividade continua sendo a cria de ovelhas para produção de carne e lã. O mais interessante é que tudo é feito da mesma maneira desde que foi fundada, ou seja, total confiança na capacidade humana e sem nenhuma tecnologia moderna. É um lugar que ficou no tempo, com todas as vantagens e desvantagens que isso propicia.
 
Desde que cheguei trabalho em um hotel que fica na vila, de mesmo nome do local, Estancia Cerro Guido (www.cerroguido.cl). O foco do lugar é justamente pessoas que querem ter uma experiência típica de estância, ou seja, fugir do lado turístico da Patagônia e ver como as coisas funcionam no mundo real. O lugar é espetacular, tem uma vista de 360º para as principais montanhas e pampas da região e fica bem perto do Parque Nacional Torres del Paine, principal motivo turístico da região e tema do próximo texto.

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Felipe Menezes

Felipe Menezes

rglocal@rglocal.com

Passou de Paulistano a cidadão do mundo em 2008, quando decidiu sair do Brasil para explorar a Europa. Isso resultou ser um caminho sem volta e depois de alguns anos no velho continente, hoje em dia caminha por terras latinas. Cumpriu seu sonho de ter uma van e agora vive por aí com sua casa-móvel e com o objetivo de conhecer todo o continente americano. Sonhador, aventureiro e historiador nas horas vagas, atualmente se encontra apaixonado pela Patagônia. Acredita que as gentilezas feitas em suas viagens são uma forma de fazer com que a boa energia entre pessoas siga fluindo. Portanto, se quiser uma carona pelo continente olhe bem, porque a qualquer momento pode ver La Bestia passando com um sorridente rapaz atrás do volante.

5 Comments

  • Ana Lúcia Merlino

    Responder

    Eu conheci a Patagônia Argentina e também me apaixonei pelas paisagens surreais!

    Adorei sua história e as fotos!

    maio 19, 2015 at 8:09 pm
  • Vera MM

    Responder

    O texto passa muita emoçao e energia, mas só quem já passou pela Patagonia sabe a força e a dimensão deste lugar. Quem não conhece vai se apaixonar, mas se encontrar La Bestia, vai ser inesquecivel!! Quem sabe vc acaba ficando por la tambem

    maio 19, 2015 at 11:00 pm
  • Giovanni Callegaro

    Responder

    Animal, Mena! Deu vontade… Também fico me questionando a permanência na frente do computador. E também sinto esse magnetismo pela vida ao ar livre… Abração

    maio 20, 2015 at 1:50 pm
  • Priscilka

    Responder

    Olá admiro muito sua vida e quero muito me mudar para aí , eu e meu marido vamos sair do emprego e me mudar de são Paulo , não quero mais viver aqui.
    Queria muito morar aí, me escrevi até no programa da patagônia para colonizar.
    Quais as dicas? Você pode me ajudar?
    Sei fazer doces caseiros e pão será que temos uma oportunidade neste país?

    agosto 1, 2015 at 2:52 am
  • tales

    Responder

    Ola !
    Gostaria de saber , é muito dificil consegui um trabalho na patagonia? pois tenho 21 anos e sou louco pra conhecer e trabalhar por ai , nem que fosse pra ser voluntario.

    novembro 15, 2015 at 8:41 am

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