Fordlândia, a cidade fantasma de Henry Ford

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Depois de um longo voo até Santarém, com uma tumultuada conexão em Belém e uma noite mal dormida num hotel na beira do Rio me vi diante do Tapajós, um dos majestosos afluentes do Amazonas. Por ele percorri mais 9 horas em um barco até chegar na cidade americana esquecida no coração da selva amazônica.
 
Nos anos 1920, o ambicioso patrono do automobilismo, Henry Ford, resolveu “cultivar” borracha, matéria prima que vale ouro na indústria automobilística. Conseguiu então uma concessão de Terras na Amazônia e começa aí uma incrível história, cheia de maus entendidos, morte, fracasso. O resultado disso é Fordlândia, uma cidade fantasma as margens do Tapajós, no Pará.
 
O que encontrei lá, foi uma típica vila beira rio, com alguns moradores, uma pousada que abriga os curiosos pela história de Fordlândia e também pescadores e pesquisadores da Floresta. Em uma das curvas do Tapajós avista-se a majestosa caixa d’agua, sobre uma torre de 50 metros de altura. Um pouco mais perto é possível avistar um dos grandes galpões.
 


 
Ford acreditou que seria fácil dar vazão ao seu sonho americano de dominar a selva. Mandou seus homens de confiança para a Amazônia e, a partir daí, uma série de erros e desencontros fizeram desta história um projeto mal elaborado. Uma das grandes críticas e causa do fracasso é que Ford não contratou nenhum biólogo para entender como funciona a floresta. Assim ele não sabia que as seringueiras não podem ser plantadas uma perto da outra, pois elas produziam uma substância que impede o desenvolvimento das árvores.
 
Cheguei de madrugada, exausto. Na manhã seguinte, depois de um bom café da manhã, sai para conhecer o que sobrou de Fordlândia. São três grandes galpões, um deles encontrei até uma urna funerária, além de carros, peças, máquina de escrever. Um hospital, que já foi um dos mais importantes da Amazônia, um cemitério, com raízes se confundindo com cruzes de cimento. Na parte mais alta do terreno, os engenheiros de Ford construíram a vila Americana, uma rua arborizada, casas de madeiras lembrando as típicas moradias que vemos nos filmes americanos. Esta parte de Fordlândia era destinada aos administradores, homens de confiança do magnata, inclusive seu neto passou um tempo por ali. Da posição estratégica da Vila é possível avistar toda fábrica e os movimentos dos operários.
 
Ford não considerou que a floresta seria tão diferente de seu reinado capitalista em Detroit. Não considerou, por exemplo, que a motivação que fazia os capitalistas americanos produzir seria muito diferente do que faz os camponeses trabalhar; fora as doenças tropicais que acabava com os americanos. Um dos administradores de Fordlândia mudou-se com a família e seus três filhos, foram vítimas e morreram por causa das doenças da selva.
 
No meio da segunda tarde que eu estava em Fordlândia, uma forte chuva caiu, coisa comum na floresta. Fiquei escondido em uma das grandes fábricas. Aquela paisagem totalmente urbana, feita do mesmo material que construiu as grandes cidades, contrastava demais com o verde que eu via no reflexo dos grandes vidros. O silêncio da floresta provocava uma estranha confusão com a paisagem bucólica. Foi quando olhei para a enorme caixa d’agua, feita para abastecer uma cidade que já não existia. Tudo ficou claro, se o homem deixar de existir na Terra, a vida segue e o universo não perceberá diferença nenhuma.
 

 
fotos: Renato Negrão

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Renato Negrão

Renato Negrão

rn.fotografia@gmail.com

Renato Negrão, é fotógrafo há 12 anos, jornalista e professor universitário, além de ser viajante profissional. Desenvolve projetos de fotodocumentarismos com foco na relação da fotografia com a memória e contribui para o mercado editorial brasileiro, em Revistas como Caros Amigos, Mundo Estranho, entre outras. É professor de fotografia na Escola Panamericana de Artes, em São Paulo. Trabalhou durante 4 anos documentando as transformações do bairro da Luz, no centro de São Paulo, registrando as transformações urbanísticas na maior cidade da América Latina. Entre os anos de 2004 e 2005 documentou a vida dos imigrantes brasileiros na Inglaterra, fazendo um ensaio sobre pessoas vivendo na clandestinidade. Atualmente trabalha no projeto Vazios Humanos, onde registra a paisagem sem a presença das pessoas, que são representadas pelas marcas que deixam no lugar. Para isto visitou Chernobyl na Ucrânia, a cidade fantasma de Cococi, no sertão do Ceará, e Fordlândia, na Amazônia e as catacumbas de Paris. Participou de várias exposições em São Paulo, Rio de janeiro, Brasília, Curitiba, Iraque, Canadá e no Uruguai.

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