O mais brasileiro dos guardanapos

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Gosto bastante de almoçar nesses pê-efes da vida…algumas vezes costumo ir sozinho. Acho bom. E acho prudente. Tem dias que me pego com a cabeça em outra dimensão, o que torna inviável qualquer interface com outra pessoa.


Em um desses dias premiados, me sentei em um botequim (recorro com certa frequência a esse vernáculo lírico de outrora, tamanha é a minha preguiça em pesquisar sobre o uso correto da palavra boteco ou buteco) para almoçar.
Precisava de algo bem maciço e resolvi pedir um bife a milanesa com arroz e feijão, batatas, farofa e pastel; e uma cervejinha de quebra, claro. De garrafa. Meu corpo clamava por um pouco de gordura e colesterol pra arrebatar uma dor de cabeça que me incomodava desde cedo.
Não costumo ter muita dor de cabeça. Talvez eu estivesse de ressaca; talvez estivesse preocupado ou chateado; talvez fosse apenas uma maldita dor de cabeça. Ou talvez eu estivesse em um dia ruim, daqueles que o “bom dia” do pelo porteiro te magoa.
Bom, não importa. Algo me incomodava e, por motivo algum, logo após meu chat de poucas frases com o garçom, comecei a encarar uma estrutura metálica com as pontas enferrujadas e recheada daqueles guardanapos vagabundos descansando na minha mesa e com um certo olhar provocador. Me senti desafiado.
Minha mente, então, resolveu divagar em torno dessa obra-prima que, cá pra nós, já deveria ter sido tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade: o guardanapo de botequim; o único guardanapo no mundo que mais suja do que limpa.
Decidi, então, descobrir quantos papéis eu precisaria pra que meus lábios e arredores pudessem ter dignidade. Esperei meu rango chegar e dei início a uma pesquisa criada por mim. Comecei com um universo de cinco garfadas. Usei dois papéis de uma vez. Nada. Puxei um terceiro e consegui sujar mais a boca. A partir do quinto, notei uma pequena evolução e lá pelo oitavo ou nono guardanapo, a limpeza labial se completou. Afinal, pra que serve um guardanapo?

Minha mísera felicidade acabou quando cometi o crime de olhar para as minhas mãos, besuntadas de óleo e molho de tomate; esqueci de mencionar que vinha macarrão acompanhando meu prato. Vejam bem, acompanhando. Já tinha em meu bife e afins uma refeição bem próxima do elixir da vida. Porque faria sentido uma massa? Tenho uma tia da Mooca, Dona Cecilia, que, de certo, reprovaria esse ato. Consideraria um ultraje; um insulto aos nossos parentes italianos. Me aplicaria um sermão daqueles, revoltada. Eu ouviria, entre um emaranhado de impropérios, que não fazia sentido a massa não ser a refeição principal.
Não faz mesmo. Mas lembro que vivo em um país de anti-heróis. Talvez faça sentido. Fiquei, então, elocubrando (sempre quis usar essa palavra) sobre como seria um encontro entre Macunaíma, D.Pedro I e seu fiel escudeiro, o Chalaça. O cenário? Um típico armazém de secos e molhados do século XIX, possivelmente na rua do Ouvidor. O tema central da prosa seria sobre os intrigante guardanapo que não limpa e seu papel como um genuíno representante da sociedade tupiniquim.
A verdade é que nada disso faz sentido, mas se eu tivesse meu negócio, só usaria esse guardanapo. E iriam reclamar. Mas, no meu bar, quem teria razão não seria o cliente. Seria o guardanapo. No caso, o anti-guardanapo, o mais brasileiro dos guardanapos.

 

guardanapo

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Felipe Lima

Felipe Lima

felipesdelima@gmail.com

Paulistanamente brasileiro, apaixonado por gastronomia, um geminiano sem cura, sonhador, impulsivo, curioso que adora se reinventar o tempo todo. Adora um café coado. Adora sotaques. Bolo. Viajar. Ler. Escrever. Adora falar. Adora ouvir histórias e estórias. Adora conhecer e aprender, sempre. Conectar. Trocar idéias, experiências, olhares, receitas e gentilezas. É publicitário e chef por formação e jornalista por vocação, hoje faz um pouco de tudo; colabora com blogs e revistas, produz eventos, cozinha, viaja, empreende e neste ano entrou para a lista das dez semi-celebridades mais chamadas para bailes de debutantes.

2 Comments

  • Ana Luiza Bastos

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    Felipe adorei, como você escreve bem!
    Meia maia sinceros parabéns
    Sua mais nova Fã
    Luiza Bastos (Baccos)

    julho 22, 2015 at 10:48 pm
  • Gabriel Barboza

    Responder

    Hahahaha, caralho, demais!! Não compartilho de tamanha ogrisse, e já aprendi, não sei como a me limpar bem com esses. Normalmente uns 10 já bastam pra refeição, mas curti a forma hilária de contar e quem te conhece, te ouve narrar esse texto.

    julho 23, 2015 at 11:17 am
  • Margarete Pilan

    Responder

    Sensacional a matéria!
    Parabéns!

    julho 24, 2015 at 10:30 pm

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