Receita de vida

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Como todo bom gordinho que pauta 85% de suas conversas em comida, estava eu, um dia desses, conversando com um amigo sobre hambúrgueres e indagando qual seria o melhor de São Paulo.


Entre foodtrucks, garagens, portinhas e parrudas lanchonetes, o badalado Z Deli foi citado por nós, o que acabou me fazendo recordar de uma história curiosa de uma quase crônica esquecida em meus arquivos.
Muita gente não sabe, mas antes de ser a hamburgueria cool-neohipster-hypada da rua Paris 6 (leia-se Haddock Lobo) com sua filial de Pinheiros, a Z-Deli, sem resquícios de hambúrguer e sanduíche no nome e aparentemente deixada de lado pelo Google, era uma delicatessen da década de 80 inspirada em alguns clássicos nova-iorquinos como Katz, Carnegie Deli, Second Ave Deli entre outras que, desde o século 19, servem embutidos, conservas, massas, pães, sanduíches e outras iguarias judaicas, Koshers e abençoadas em lugares icônicos espalhados pela cidade de Nova York.
Pois bem, nessa época trabalhava em uma agência nos Jardins, em uma esquina cheia de pompa na Rua Estados Unidos com a Bela Cintra, o que me permitia me sentir um nobre habitue do bairro e conhecedor de seus pequenos segredos. E essa pequenininha e quase imperceptível deli bem simpática era um deles e por um bom tempo flertou comigo até eu tomar coragem para conhecê-la.
Não me recordo bem o ano. Me recordo o dia. Era uma terça-feira. Fria. Chamei uma amiga pra almoçar. Nesse dia estava inclinado a acabar com essa história de flerte e agir. Dez passos no estacionamento e relatei pra minha amiga sobre minha decisão. Dez minutos depois, meu coração começou a acelerar quanto avistei a portinha sedutora. Era a hora da verdade. Apontei para o local e paramos na porta. Uma delicada senhora, de quem até hoje não lembro o nome tal era meu encanto quando perguntei, estava na porta e parecia nos esperar, como uma avó espera seus netos para um almoço bem caprichado de domingo. Até a mesinha escolhida parecia estar reservada pra gente. Sentamos. Olhamos uma vitrine com comidas e um cardápio com muitas opções. Impossível decidir. Pedimos que a senhora nos ajudasse e sugerimos um pot-pourri. Fizemos a alegria dela. Mas não fazíamos idéia do que nos esperava.
De repente, começou a festa de Babette versão brasileira 2.1. Entre uma sopa de mandioquinha, uma salada de batata, kibinhos (sim, no diminutivo e no plural), saladinha de iogurte, pepino e dill, coalhada seca com limão, uma pasta de berinjela e guelfite fish (bolinhos de peixe) não havia tempo para dizer não. Também não entendemos que era apenas a entrada. Fomos informados de que haveria mais. Muito mais. O olhar acolhedor daquela senhora nos fez ceder a mais uma rodada daquele banquete. Sem pedir licença, sentaram-se à nossa mesa célebres convidados, entre eles varenikes (uma espécie de ravióli de batata e cebola frita), creme de espinafre, quiche de alho poró e klops (almôndegas judaicas). Obviamente não queríamos sobremesa, mas como dizer não ao bendito struddel de maçã, carinhosamente oferecido como cortesia seguido por um café bem gostoso e acompanhado de uma balinha de coco gelada… e.. chega… ufa!

A conta chegou, mas foi apenas um detalhe; acolhidos, confortáveis e satisfeitos, estávamos em estado de graça. Me senti em alguma casinha em algum vilarejo perdido no tempo em algum lugar do leste europeu. Só faltou aquele cafuné no sofá ao som de Chaves para uma bela pestana pós-almoço.
Nos despedimos da senhora sem nome e decidi que iria escrever sobre seu restaurante. Mas ainda faltava algo a mais para merecer um texto….eis que eu me deparo com uma espécie de poema em formato de receita na parede, escrita pelo próprio artista que decorou o ambiente, segundo fui informado. A tecnologia à serviço do ser humano, pode ilustrar essa divertida mensagem:

 

guardanapo

“Conte histórias cheias de belas mentiras”. Lindo. Não sei porque, mas isso me fascinou. Quase liguei para a Academia Brasileira de Letras pra perguntar se alguma obra do Sarney conseguia ser mais literária do que essa despretensiosa e singela mensagem ( me desculpem pela indignação, mas, cá pra nós, gostaria de saber o que José Sarney possui de literário, fora aquele caricato bigode que não chega sequer aos pés de “Um Certo Capitão Rodrigo” ).
Mas, voltando ao poema do nosso querido Tripolli, que nada tem a ver com minhas revoltas, fiquei refletindo sobre a perfeita/imperfeita receita e eu, como o metido ser que sou, imaginei alguns ingredientes a mais. Estava inspirado e, em pouco tempo, algumas frases/ingredientes tomaram conta da minha cabeça: “Sorria mais”, “Diga sim moderadamente”, “Fale palavrões de modo cortês” e por ai vai….Daria pra dizer tantas outras frases, principalmente depois de algumas doses de vinhos…mas, convenhamos, isso é papo pra outra receita. Essa já está perfeita do jeito que está.


 

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Felipe Lima

Felipe Lima

felipesdelima@gmail.com

Paulistanamente brasileiro, apaixonado por gastronomia, um geminiano sem cura, sonhador, impulsivo, curioso que adora se reinventar o tempo todo. Adora um café coado. Adora sotaques. Bolo. Viajar. Ler. Escrever. Adora falar. Adora ouvir histórias e estórias. Adora conhecer e aprender, sempre. Conectar. Trocar idéias, experiências, olhares, receitas e gentilezas. É publicitário e chef por formação e jornalista por vocação, hoje faz um pouco de tudo; colabora com blogs e revistas, produz eventos, cozinha, viaja, empreende e neste ano entrou para a lista das dez semi-celebridades mais chamadas para bailes de debutantes.

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